Um ponto oito.

Dentro do meu carro
A estabilidade
Me faz acreditar
Que está tudo bem
Tudo em seu lugar

E logo me esqueço
Tudo tem seu preço
Aumento a velocidade
E atravesso a cidade
Sem pensar
Sem pensar
Sem pensar

Em mais ninguém
A não ser em quem gosta de mim
Me esqueci numa curva que fiz
Tão veloz que o amor
Não morreu por um triz

caio fernando abreu

"E tudo que eu andava fazendo e sendo eu não queria que ele visse nem soubesse, mas depois de pensar isso me deu um desgosto porque fui percebendo (...) que talvez eu não quisesse que ele soubesse que eu era eu, e eu era."

corcovado.

http://www.youtube.com/watch?v=f2xB3niVj-c

"Não há nenhum pecado se pecar em silêncio" (Tartufo, IV, 5)

neverland



"Você introduziu o faz-de-conta nessa família. Mostrou a eles, que acreditando, as coisas, podem ser diferentes. Aquelas que importam. Há algum tempo fingimos que você faz parte desta família, não é? Você é tão importante para nós que agora não importa se é verdade. E mesmo que não sendo, se isso nunca acontecer, se isso nunca puder ser, preciso continuar fazendo de conta, até o fim, com você."

O pierrô e a colombina.


“Um pierrô apaixonado, / que vivia só cantando, / por causa de uma colombina / acabou chorando, acabou chorando.”

(Heitor dos Prazeres e Noel Rosa, na marcha carnavalesca Pierrô Apaixonado)

Ele pediu um beijo, mas ela não quis dar. Não que não quisesse, só que ele tinha que se esforçar mais, pensava ela, se ele queria realmente aquele beijo, afinal de contas, ela era uma colombina, tinha obrigação de fazer jus à fantasia. E assim iam juntos acompanhando o bloco. Ele pedia. Ela recusava. Ele fazia cara de dó. Ela sorria, apenas sorria. Caía muita água do céu. Já era terça-feira de carnaval. Último dia, pensava ele, e vou ficar sem o beijo dessa menina linda. Amanhã restarão os despojos e a chuva já era indício do fim. Era chuva para limpar a alma da cidade, como todos os anos, após os festejos. Só que veio cedo desta vez, fazer o quê. Acabaria o verão, acabariam os sonhos, as fantasias. Seriam cinzas de um amor que passou. Um amor inventado. Porcaria de chuva, era para vir somente na quarta-feira, assim praguejava, enquanto olhava para a menina linda que sorria para ele e lhe negava o beijo. Então vou embora, disse, num ímpeto próprio de labaredas de fogo, o que tornava ainda mais ridícula a sua roupa de pierrô. Vai, disse ela. Olha que vou, ameaçou. Não estou segurando você, vai! Eu sou uma colombina, não darei bola para um simples pierrô, disse a menina, cheia de graça. Ele se virou e começou a andar na contracorrente daquele mar de gente, confetes e serpentinas. Não viu a súbita tristeza no olhar da menina. Mas depressa, outro, um serafim, abordaria ela. Para o pierrô, o templo de faz-de-conta se fechara. Ainda ouviu de longe um batuque. Percebeu também um beija-flor entre as árvores. Talvez significasse um prenúncio bom. Quem sabe? E curandeiras para coração partido que lamuriavam na calçada. Eram essas as sentinelas do povo, o mesmo povo que se faz nobre-azul na folia dos carnavais. Ele olhou para elas. E elas olharam para ele. Olharam através dele. Logo atrás. Ele então se virou e viu a menina linda dando um tchauzinho para o serafim e vindo correndo em sua direção. Ele olhou novamente para as sentinelas do povo na calçada e elas davam boas risadas. Eram as curandeiras para coração partido, precisavam de boas risadas de vez em quando. Então a menina linda se aproximou e disse logo: toma o beijo, pobre pierrô. E ele pegou o beijo. Um beijo salgado de chuva, um beijo de colombina para purificar, com alegria e amor, o mundo.

(Rodrigo Novaes de Almeida (Rio de Janeiro-RJ, 1976). Escritor, jornalista e artista plástico.)

A história de Suzanne


Suzanne Verdal McCallister era uma jovem dançarina casada com um escultor de seu nome Armand Vaillancourt. Conheceram-se quando dançavam os dois num local chamado Le Vieux Moulin perto do Quebec, no Canadá. Numa das suas actuações foram apresentados a um indivíduo que se dizia ser poeta e escrever canções. O encontro foi breve. No Verão de 1965 Suzanne vivia numa precária roulotte junto à margem do rio St. Lawrence, num local paradisíaco. Foi por esta altura que começou a receber a visita periódica daquele poeta que conhecera três anos antes. Passaram algum tempo juntos. Acendiam uma vela, bebiam chá e ficavam a olhar um para o outro calados; outras vezes falavam das coisas da vida e trocavam ideias.

Desses encontros nasceu uma relação muito especial. O rio e a beleza do local fortaleceram os laços dessa amizade, certamente. O poeta absorvia tudo da dançarina: a sua maneira de falar, de andar, o jeito de vestir, ouvia-a rezar em silêncio... parecia ler-lhe os pensamentos. Entre eles havia perfeita sincronia, uma comunhão de espíritos. O poeta descreveu minuciosamente todos estes momentos partilhados e mais tarde musicou os seus escritos numa composição intimista. Chamava-se Leonard Cohen.

Mais tarde encontraram-se algumas vezes, uma delas num hotel em Montreal. O poeta era agora um famoso compositor. Podiam naquele momento ter estado juntos e partilhado mais alguma intimidade mas Suzanne recusou, embora o tivesse talvez desejado. Cohen sentiu isso como sentira tudo o resto; aquele encontro seria o derradeiro. Os dois espíritos que em tempos se amaram separaram-se. Ele ficou famoso; ela foi sucumbindo aos anos e caiu no esquecimento. Ficou a memória do passado, da juventude, de momentos eternos, de um entendimento profundíssimo e de uma tristeza e nostalgia que nunca mais deixámos de encontrar nas canções do poeta que considera ainda ser esta a melhor composição de toda sua carreira.

Actualmente Leonard Cohen vive num mosteiro Zen na Califórnia situado a poucos quilómetros do local onde Suzanne habita com os seus sete gatos e onde dá aulas de dança...

Suzanne takes you down to her place near the river
You can hear the boats go by
You can spend the night beside her
And you know that she's half crazy
But that's why you want to be there

And she feeds you tea and oranges
That come all the way from China
And just when you mean to tell her
That you have no love to give her
Then she gets you on her wavelength
And she lets the river answer
That you've always been her lover

And you want to travel with her
And you want to travel blind
And you know that she will trust you
For you've touched her perfect body with your mind.

And Jesus was a sailor
When he walked upon the water
And he spent a long time watching
From his lonely wooden tower
And when he knew for certain
Only drowning men could see him

He said "All men will be sailors then
Until the sea shall free them"
But he himself was broken
Long before the sky would open
Forsaken, almost human
He sank beneath your wisdom like a stone

And you want to travel with him
And you want to travel blind
And you think maybe you'll trust him
For he's touched your perfect body with his mind.

Now Suzanne takes your hand
And she leads you to the river
She is wearing rags and feathers
From Salvation Army counters
And the sun pours down like honey
On our lady of the harbour

And she shows you where to look
Among the garbage and the flowers
There are heroes in the seaweed
There are children in the morning
They are leaning out for love
And they will lean that way forever
While Suzanne holds the mirror

And you want to travel with her
And you want to travel blind
And you know that you can trust her
For she's touched your perfect body with her mind.